O que é Justiça? – [3]

Posted: 17 Junho 2012 in Filosofia e Hermenêutica, Opinião
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“Não há pensamento importante que a burrice não saiba usar.” – Robert Musil.

Em outras publicações comentei um pouco acerca do que seria justiça, e o assunto parece mesmo não ter fim.

Muito se fala de justiça, porém, infelizmente sem muita filosofia. Afinal, o que vem a ser justiça? Pouco prudente seria dar um conceito exato sobre esse tema, pois conceitos limitam um assunto e fecha o círculo de pensamento sobre o tema.

Aristóteles compreende a Justiça em duas concepções: a universal e a particular. Ambas são relacionadas à virtude do caráter. O motivo dessa divisão baseia-se no significado de injustiça, que para Aristóteles pode ser desobediência à lei e avidez demasiada. Porém, o filósofo considera a possibilidade de leis mal elaboradas, o que relativiza então o seu conceito, mas não abordando isso, prefere resolver a questão, no sentido de obediência as leis, que ela só será justa se promover a felicidade dos cidadãos, da comunidade, e não a de quem as elabora.Aborda também a relação com a virtude, afirmando que a lei deve ser uma atividade virtuosa que objetiva promover a felicidade dos cidadãos, pois “todo agir virtuoso promove a felicidade” (YOUNG, 2009).

Justiça dificilmente se conceitua, mas certamente meus amigos, não é ser um juiz leiloeiro de destinos, que anos leve – isto quando não se negue – pro remédio dar ao doente, liberdade ao inocente ou um simples rumo ao pobre errante. Certamente não é ser um promotor e denunciar pessoas a esmo, apaixonar-se pela ira e promover somente e cólera. Tão pouco é ser um advogado, o embusteiro do juízo, defensor do prejuízo, que no papel escreva 20 e do coitado leve 50. Menos ainda ser um policial, que trata os cidadãos com violência, mas que no seu juramento prometeu defender a decência.

Como costumo dizer, o fato é que, os orgãos constituintes da “justiça” são contaminados por maus advogados, maus promotores, maus juízes, entre outros. Advogados e promotores são a matéria-prima do direito; o juiz é o mestre de obras, e sendo os ingredientes ruins, corolariamente a obra será ruim, e nessa receita vai se construindo castelos e impérios de injustiças.

Justiça não é viver em um país onde, como cita a música, se prende o pé-rapado, se solta o deputado e absolve os PMs de vigário. Justiça não é viver em um país em que bandidos ganham prêmios na terra onde bebês respiram gás lacrimogêneo.

E que Justiça é essa que só vai em cima do pobre; do desprotegido; e de quem usa chinelo?

Não! Justiça nós faremos quando falarmos a verdade, calarmos a mentira e findarmos todo o abuso. Justiça nós faremos quando em frente à corrupção, irmos além da indignação e exigirmos condenação. Justiça nós faremos quando as mãos dermos aos probos para acabar com a tirania e desinfetar nossa república de toda essa anarquia. Justiça nós faremos quando abraçarmos a tolerância e negarmos a ignorância, quando beijarmos com amor, lutarmos com pudor sentindo toda a dor. Justiça nós faremos, meus amigos, quando olhos dermos ao cegos, aos surdos os ouvidos e aos mudos nossa boca, e ao órfão uma mãe, um lar ao destelhado, um sorriso ao desgraçado, o alfabeto ao iletrado, alegria ao infeliz, esperança aos muito honestos.[1]

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