Até quando é bom ter opinião?

Posted: 16 Abril 2012 in Opinião

De vez em quando, dá até medo de conversar com as pessoas! Isso por que, em um diálogo, tem gente que não admite uma opinião contrária à sua. Não são raras as vezes que escolhi ficar calado, concordando, por fora, com o famoso “aham” só pra não ter que desencadear uma discussão.

O caso em questão agora foi a ADPF 54 – STF, o famoso e repercutido abordo de anencéfalo. O que acontece é que, dentro de toda essa discussão, alguns amigos – uns queridos, outros nem tanto –  vieram me perguntar o que eu achava de toda essa situação; o que eu achava do aborto, o que eu achava da decisão do STF, o que eu achava da legalização, o que eu achava das consequências, o que eu achava da vida depois disso. Enfim, o que eu achava sobre tudo.

Respondi, categoricamente, para desfalecimento e indignação de alguns, que não achava nada. Isso mesmo, isto era o que eu pensava, pois até a inércia é uma opinião.

E continuo não achando uma resposta certa para este caso, e seria no mínimo leviano de minha parte eu achar alguma coisa.

Eu nunca engravidei (nem poderia se quisesse, e não quero). Eu não sou mulher (ah váh, cê jura?). Eu nunca fui abusado sexualmente ou fui estuprado a ponto de que essa barbárie desse como fruto uma criança indesejada. Eu nunca estive junto de uma mulher que quisesse, ou precisasse abortar. Eu nunca convivi com uma mãe que carregasse na barriga um feto anencéfalo. Eu não tinha nenhum fundamento concreto para achar qualquer coisa que fosse, sobre nenhuma circunstância. Se eu desse alguma opinião, seria uma opinião vazia, absolutamente oca, apenas para satisfazer a gana de opinião dessa gente toda, e tornar parte dessa burburinha toda. E sinceramente, se for pra emitir opinião sem conhecimento do assunto, só pra ficar “dentro da onda”, eu reservo meu direito constitucional de ficar calado.

Diante da ausência completa de minha manifestação, aqueles que tanto me bombardearam com perguntas ficaram mais indignados do que quando o Brasil perdeu a copa, que infelizmente é o auge da indignação do povo do país do futebol. Me disseram que eu não poderia ficar indiferente, que vidas estão em jogo, que o assunto era muito sério, tudo isso seguida de uma incansável ladainha na tentativa de sistematizar o problema…

Respondo que meu silêncio não é indiferença, mas sim sensatez. Como diz o provérbio: “enfiar a mão em vespeiro desconhecido é coisa que só macaco incauto faz.” E quanto mais me aborreciam sobre a legalização do aborto, mais eu me distanciava dela e me aproximava de outro mal ainda mais premente, uma doença. A síndrome da opinião irracional desesclarecida. Aliás, corrijo-me, uma doença não, uma praga. Praga essa que acomete grande parte dos seres humanos que, ao lerem uma manchete de jornal, ao verem uma chamada no noticiário, ou seguirem uma discussão na internet, simplesmente, de uma hora para outra, passam a saber tudo sobre determinado assunto, e querem fazer o que? Dar sua opinião. Uma informaçãozinha atravessada, ou até mesmo uma conversa de terceiros já basta para que opinem com tanta convicção e propriedade, que passa por cima de catedráticos que vem observando e debatendo aquele assunto profundamente, anos a fio.

Como dizia meu professor de direito processual, ao sermos questionados sobre determinado assunto que não conhecemos, não aja pela vaidade, “tirem onda” e respondam: “não posso opinar sobre o caso, ainda não li os autos processuais”. Assim como o dia vem após a noite, é fato que o 4º poder (Mídia) passa a informação que quer da maneira que quer, manipulando aqueles que não gostam muito de pensar para ter uma opinião.

Ter opinião é bom, faz vista, denota inteligência, mostra que a pessoa é informada. Mas um aviso: quando ousar opinar, prepare-se. Pra mim não existe gente mais chata do que quem tem opinião sobre tudo, principalmente quem não sabe de nada.

Anúncios

Os comentários estão fechados.